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sexta-feira, dezembro 07, 2012

Campanha #desarquivandoBR

Mudar a foto da gente pela foto de um desaparecido político pode não ter, de efetivo, nenhum resultado. Assim como tem quem diga que mudar o sobrenome pelo nome de tribos e comunidades indígenas também não adianta. Não muda muito mesmo, mas mostra que tu te importas. Eu não consegui mudar minha foto porque a que escolhi é pequena demais, disse o facebook. Minha escolhida é Ana  Rosa Kucinski  professora de química no Instituto de Química de São Paulo e tinha 32 anos quando foi presa. Três a menos que eu hoje. Desapareceu com o marido Wilson Silva.

O maior alerta, na minha opinião, é o desrespeito com as família que tiveram seus filhos, pais, mães, esposos serem levados presos e desapareceram há mais de 40 anos e até agora não tiveram o direito de dar aos seus mortos uma sepultura digna. Na desculpa de não dar lugar ao revanchismo, como dizem os militares, resta às famílias de mortos e desaparecidos políticos carregarem sua dor e seu sofrimento por mais um tempo. É muita maldade permitir que mães morram sem saber, afinal de contas o que aconteceu com seus filhos. Por que, dizem muitas mães, que "pior que saber que um filho está morto é ter um filho desaparecido e não saber como, onde ou o que lhe aconteceu".
Não abrir os arquivos e colocar um fim nesta tortura é absurdo! É a demonstração clara de que, na essência, algumas coisas não mudaram quando se trata de poder e dinheiro, mesmo depois da "redemocratização".

quarta-feira, maio 16, 2012

Que lado prevalecerá?

Estou sempre lendo textos, pesquisas, livros e artigos sobre a Ditadura Militar, a Lei de Anistia, desaparecidos políticos e coisas afins. Quando o primeiro, dito governo de esquerda foi empossado, animei-me pensando que realmente os arquivos secretos seriam abertos e todas aquelas histórias escabrosas de tortura, desaparecimentos, cemitérios clandestinos seriam esclarecidos e os torturadores seriam levados a julgamento. Mas nada aconteceu efetivamente e, assim como várias leis e programas,  o desarquivamento ficou para o próximo presidente, no caso presidenta.
Falou-se em revanchismo, em dureza e tudo mais. O bicho papão da esquerda no Brasil, depois do "Lulinha Paz e Amor" estava mansinho, mansinho. E a ex-guerrilheira, presa e torturada nos temidos e úmidos porões da ditadura militar tornou-se uma avó doce e meiga, a ponto de lançar um programa de governo com o nome de Brasil Carinhoso. Nada contra! Aliás, bem pelo contrário.  As trabalhadoras brasileiras necessitam ser contempladas com os pontos destacados no programa. Dilma segue sendo uma mulher firme, mas nesta questão da ditadura militar os milicos continuam ganhando.
Foram anunciados os sete integrantes da Comissão Nacional da Verdade, mas não há representantes das famílias ou dos movimentos pelos direitos humanos. A indignação veio com a declaração do integrante da CNV, Jose Carlos Dias, que destacou que o foco será a responsabilidade dos "dois lados". É tão linda a imparcialidade não é? Irão punir mais uma vez quem esteve preso e foi julgado pelos militares? Como farão com os desaparecidos? Eles se tornarão foragidos da Justiça? Não basta a crueldade de impedir suas famílias de dar-lhes um sepultamento digno? Não basta os militares seguirem comemorando o golpe, porque foi um golpe dado num governo legalmente constituído?
Quando penso neste período e nos acontecimentos, não consigo deixar de me  indignar com isto, com este absurdo que é manter secretos os acontecimentos que daria alento há centenas de famílias que não sabem se seus entes queridos estão realmente mortos. Famílias estas que não tiveram o direito de sepultar seus mortos e não se sabe se irão ver a Justiça ser feita. E com certeza, muito mais do que eu, devem ter sofrido horrores ao ler ou ouvir a declaração de José Carlos Dias.
Levarão os mortos ao banco dos réus? E os militares?
Os militares aprovaram os integrantes da Comissão Nacional da Verdade. Agora tirem suas próprias conclusões.

domingo, abril 01, 2012

5ª Blogagem coletiva #desarquivandoBR

Outro dia assisti, na companhia do meu sobrinho, um filme dirigido pelo Clint Eastwood e protagonizado pela Angelina Jolie. Na trama do filme "A troca", Angelina tem seu único filho sequestrado e na ânsia de conseguir calar as reclamações da população (e da mãe) a polícia local a induz a receber um outro menino no lugar de seu filho desaparecido. Muitos abusos são cometido pela polícia até que um policial  vai atrás de um pista e descobre um assassino em série que caça meninos na rua e os mata em seu sítio. Entre os possíveis mortos pelo serial killer está o filho de Angelina Jolie, que está perfeita no papel da mãe. Como ela não se cala e vai buscando provas de que o menino que recebeu não é seu filho acaba sendo trancada em um manicômio, sob o argumento de que não queria reassumir, segundo o investigar corrupto, seu papel materno. Ao final da película a mãe segue em busca do filho desaparecido, visto que não foi encontrado corpo, portanto, para qualquer mãe segue existindo esperança de que o filho volte.

No final do filme eu lembrei das centenas de mães brasileiras que tiveram seus filhos roubados pela ditadura militar. E dos militares, que ironicamente comemoram no dia 1° de Abril uma Revolução, que nunca passou de um golpe militar. Na primeira vez que participei da blogagem coletiva eu falei sobre este tema, e volto a ele porque de todos os arquivos escondidos da ditadura militar do Brasil o direito de não enterrar seus mortos ainda é o mais difícil no meu entendimento, aliás, é o mais cruel! É a tortura institucionalizada da ditadura que ainda acontece.

Talvez ocorra com os nossos governantes (que ainda não abriram realmente os arquivos secretos) o mesmo que acontece com meu sobrinho, que assistiu o filme "A troca" e não gostou do fato da mãe seguir em busca do filho desaparecido. Creio que não seja necessário ser pai ou mãe para se sensibilizar com a dor destes pais que perdem seus filhos. Mas há quem não tenha esta capacidade e ainda que os direitos humanos ou qualquer outra  instituição internacional condene ou determine a abertura dos arquivos a dor de não saber aonde estão os restos mortais de seus entes queridos segue uma ferida aberta no peito de pais, mães, filhos, esposas. Já escutei várias mães dizendo que "ter um filho morto é uma dor inominável, mas ter um filho desaparecido deve ser muito pior, porque não se sabe como está, onde está, com quem está". E é nestas palavras que eu penso todo ano quando vejo as notícias de comemoração do golpe militar, porque foi um golpe.

É muita crueldade manter familiares há mais de 40 anos sem saber o que aconteceu com seus entes. Muitas mães já morreram, em desgosto e desespero, sem ter podido dar um enterro digno aos filhos. Sim, existem cemitérios clandestinos, de onde poderão ser retirados os restos mortais e se realizar exames de DNA para determinar de quem se trata, mas e aqueles que foram jogados ao mar?

Tão cruel quanto manter familiares sem saber, sem poder sepultar seu entes queridos é um governo, dito de esquerda se eximir diante de tudo isto de cumprir as determinações a que foram condenados a cumprir. É cruel, numa solenidade de assinatura da anunciada e festejada Comissão da Verdade, cortar o discurso da filha de um ex- deputado assassinado nos porões da ditadura.
Como isto pode acontecer no governo de uma ex-guerrilheira, de uma mulher que foi torturada e sofreu abusos? Compreendo que para governar é preciso ter jogo de cintura, realizar coligações, ceder alguns pontos. Mas atualmente o que vejo não é isto, mas uma completa mudança, parece até que nada das ideologias do passado restou. Chego a pensar que a verdadeira Dilma, a que tinha sonhos, ideologia, a que sofreu tortura sem entregar companheiros ficou perdida em algum lugar daqueles porões. Daqueles porões saiu uma Dilma modificada.  E infelizmente insensível aos apelos de companheiros do passado.

Todos nós que buscamos e pedimos a abertura dos arquivos e promovemos o #desarquivandoBR esperamos que o Brasil admita o erro que foi o golpe militar, reveja a Lei de Anistia e tome o período da ditadura como lição para que não volte a acontecer. Que os passos sejam dados com vagar, mas que sejam dados e sejam firmes para a abertura verdadeira. E principalmente, que acabe definitivamente esta tortura que ainda ocorre dos familiares que não podem dar um sepultamento digno a seus mortos.

Este texto faz parte da 5ª blogagem coletiva #desarquivandoBR pela abertura dos arquivos secretos, pela efetivação e cumprimento da  determinação da OEA pelo caso dos mortos na Guerrilha do Araguaia.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Quarta blogagem coletiva pela revisão da lei da #Anistia

A Niara de Oliveira, do blog Pimenta com Limão convocou a quarta blogagem coletiva pela revisão da Lei da Anistia e o cumprimento integral da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos do caso da Guerrilha do Araguaia. O objetivo é concentrar um esforço coletivo para forçar o governo a rever sua posição tão rígida em relação ao nosso passado recente, mas que deve ser revisto o quanto antes para que a tão sonhada e propagada democracia se construa verdadeiramente.
A campanha Cumpra-se "é um esforço cidadão de indivíduos, coletivos, entidades e movimentos sociais, para que a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos seja cumprida integralmente, visando a afirmação dos direitos humanos no Brasil e o respeito à jurisprudência e à jurisdição internacional da Corte IDH expressa em nossa constituição." E a 4ª blogagem coletiva vem engrossar este coro, junto com as centenas de famílias que ainda buscam por seus familiares desaparecidos durante o regime militar.
Acreditávamos que os arquivos secretos fossem ser abertos e postos a disposição no primeiro mandato de um presidente de esquerda, mas não ocorreu. Também não aconteceu no segundo mandato. Mas ainda existia uma grande esperança de que a Lei da Anistia fosse revista e além dos arquivos secretos, que foram colocados a disposição, os outros vários catalogados como "ultra secretos" fossem retirados do "cofre" e passassem a consulta dos cidadãos, com os responsáveis pelas torturas e mortes punidos e os corpos dos mortos naquela época devolvidos a suas famílias para, enfim, terem o descanso merecido. Nada disso foi feito. Os arquivos ultra secretos foram, mais uma vez, colocados sob sigilo eterno. A revisão da Lei de Anistia não veio e nem o cumprimento da sentença dada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos referente ao caso da guerrilha do Araguaia foi cumprida, mesmo tendo como dirigente da nação uma ex-guerrilheira, que foi presa e torturada nos porões da ditadura militar.
Lembro-me, com muita vivassidade do período em que a esquerda era temida por suas defesas apaixonadas do socialismo. Hoje em dia o que temos é um governo que se conchavou, pra mim de forma vergonhosa, com toda a sorte de políticos, com quase todos os partidos. Poucos são os partidos, realmente de oposição. E infelizmente estes são pequenos, minoria no Congresso e consequentemente com menos poderes. Quanto aos outros... pipocam denúncias de corrupção aqui e ali. A cortina de fumaça se forma,uns apontam para os outros, mas as coisas estão tão misturadas e tão pouco nítidas que mal se enxerga quem é quem.
Este ano comemoramos com, bem pouco entusiasmo, mas com um fio de esperança a criação da Comissão da Verdade, ou será da MEIA verdade, que irá investigar os crimes contra os direitos humanos cometidos no período entre 1946 e 1988. Espero que com especial atenção para o período da ditadura militar. No entanto, não foi permitido que ex-presos políticos ou familiares integrassem a dita comissão.
É estranho que a presidente Dilma Rousseff negue ser pressionada pelos militares para que deixe quietas as questões da ditadura militar, não puna os torturadores e mantenha a tão sonhada abertura, propagandeada como um portão gigante, ainda como uma pequena fresta. Parecia que tudo havia mudado realmente, até uma novela sobre os anos de chumbo esta passando na tevê aberta e ao final de cada capítulo estavam sendo exibidos os depoimentos  de alguém que viveu de perto o período, mas, como muitas coisas no nosso país, as histórias gravadas para exibição foram retiradas do ar sem nenhuma explicação. O autor da novela Thiago Santiago sempre falou com entusiasmo sobre os depoimentos, no entanto, nem mesmo ele sabia o porquê da retirada das declarações.
Eram depoimentos reais, que sabia-se serem verdadeiros. O espaço também era aberto aos militares, que não quiseram participar. Talvez não quisessem "produzir provas contra si mesmos" e desta forma seguem tranquilos sob a proteção de uma lei que deveria beneficiar os que tiveram seus direitos feridos, mas que, na verdade, mantem torturadores bem guardados e intocáveis. E assim, a comissão de meia verdade irá investigar o que? Para quê servirá saber o que aconteceu e quem fez o que, se não se poderá punir? Sob que pilares construiremos a democracia? Que história iremos contar?
Vejo a não revisão da Lei da Anistia e o não cumprimento da sentença da Corte Interamericana dos Direitos Humanos como uma lacuna que não será preenchida. Nossa história será como um quebra cabeças que fora montado faltando peças.