Lembro de forma clara a primeira vez que escutei a expressão "massa de manobra" foi depois de uma manifestação em frente a UPES (União Pelotense dos Estudantes Secundaristas) na época presidida pelo Flávio Souza (PMDB). Quem bradava que a Upes estava usando os estudantes como massa de manobra era o Gerônimo (não sei seu sobrenome, apenas que era estudante do Ginásio do Areal) que junto com outros estudantes havia organizado a manifestação contra aumento de passagens de ônibus, por meio passe para estudantes, mais atuação da Upes junto aos estudantes, pois segundo corria a boca pequena o presidente do órgão estudantil havia se conchavado com a prefeitura e ficado ao lado dos empresários do transporte e consequentemente contra os estudantes e o povo. Embora eu não soubesse o que significava a expressão "massa de manobra" compreendi no contexto geral do que veio após a manifestação.
Eu estava lá, não havia acontecido briga ou qualquer ato de vandalismo, mas no dia seguinte seguiam boatos de que os estudantes haviam quebrado portas e invadido a Upes e quebrado móveis. Na verdade fomos até a sede da união e o presidente não nos recebeu, gritamos, nos manifestamos e fomos embora. O tal quebra-quebra, se houve, não foi promovido pelos estudantes e nunca teve um esclarecimento.
Depois disso fui atrás de saber o que tratava ser a tal "massa de manobra". Não havia google na época, nem internet. Tínhamos que descobrir na biblioteca, conversando com professores ou o pessoal do grêmio. Lá fui eu atrás de saber. Não lembro quem me explicou, mas em nenhum momento me senti parte da massa manobrável. Todo o tempo pensava no meu motivo para estar naquela mobilização, no motivo justo e claro. Eu não estava lá para apoiar possíveis conchavos Upes/prefeitura/empresário de ônibus. Estava lá justamente pelo contrário. Imaginem se hoje ainda estão abertas as feridas causadas pela ditadura, imaginem como não estava a cabeça dos estudantes pouco depois da abertura, antes do Collor?
Não participei do movimento "cara pintada"! Para alguns amigos que me tem como politizada isto será motivo de espanto, pr'aqueles que acham que eu tenho um pé no sistema reacionário uma confirmação, talvez. Não que eu aceite, concordo ou simpatizasse com o colorido, pelo contrário. Aliás, não consigo compreender como ele conseguiu um cargo de deputado apesar de tudo. O que pra mim é um indício de que outras formas de punir políticos devem ser pensadas. Mesmo sem participar ativamente, indo pras ruas vestindo preto (e isto sim foi bonito, porque foi como na música do Raul, "Como que se fosse combinado...") o pessoal estava lá e eu, trabalhando como office estava na fila do banco pagando contas. Senti-me participando, mesmo sem estar gritando ou marchando nas ruas. Não tinha a consciência política que tenho hoje, mas graças a minha ótima memória em relação a estas coisas que vi e vivi que formei minhas opiniões.
Tenho um sentimento dúbio em relação aos "caras pintadas" um é em torno da crítica que se faz a manipulação da Rede Globo que levou o povo para as ruas pedindo o impeachment do presidente, uma palavra aliás que quase ninguém tinha ouvido falar. E o orgulho que se tem de ter tirado o cara de lá mostrando que o povo tem poder. Fico dividida pensando sobre isto. E penso ainda mais quando as pessoas começam a questionar os rumos das atuais manifestações no Brasil.
Óbvio que percebo as pessoas que querem aproveitar-se do momento para incutir velhos preconceitos na pauta do Movimento Passe Livre. Não sou ingênua a ponto de acreditar que não há impostores infiltrados no movimento legítimo. Mas creio (e talvez, para alguns, eu esteja sendo muito otimista) que assim como eu e tantas outras pessoas quem participa das marchas sabem exatamente O PORQUÊ estão na rua. Concordo que seja o momento de reunir o povo e unificar a pauta, esclarecer, especificar, para deixar ainda mais claro as coisas e destacar quem está destoando nesta manifestação.
Para mim, só o estranhamento que as pessoas estão tendo durante as mobilizações e estão relatando nas redes sociais já me parecem uma clara evidência de que o povo nas ruas não está inconsciente para servir de massa de manobra e os oportunistas estão sendo percebidos na multidão. A luta segue!
Esta página é para quem acredita que um mundo melhor é possível e que o jornalismo deve ser livre, íntegro, revolucionário, questionador e formador de opiniões, ou pelo menos fazer com que a gente pense. Segundo Millôr Fernandes "a função do Jornalista é trabalhar para ser demitido". Eu já estou no 3 a zero. "Livre pensar é só pensar" Millôr Fernandes
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sexta-feira, junho 21, 2013
quarta-feira, abril 24, 2013
Justiça e Direitos Humanos
Não sou uma conhecedora das questões do direito. Como outras pessoas compartilho a ideia de que, de nada adianta ter leis e sanções se não houver fiscalização e aplicação das mesmas. Mas a necessidade das leis existe pois não temos a evolução moral que as tornariam supérfluas. Geralmente quando acontece algum caso que comove uma cidade, ou até o país, todos querem a aplicação imediata da lei, a pena, a condenação e o cárcere para o culpado o quanto antes. Estes casos que comovem o mundo são sempre bem repercutidos e tem como vítimas uma pessoa inocente, muita das vezes bonita, jovem e de classe média. Talvez, infelizmente tenhamos nos habituado a aceitar de forma melhor as mortes nas periferias. Afinal são séculos e séculos aonde os mais pobres morrem de doença e morte matada, desde as mais remotas épocas da antiguidade, não só aqui nas senzalas do nosso querido Brasil, mas mundo afora.Estas mortes prematuras são fruto da violência desenfreada, da miséria, da gritante diferença entre ricos e pobres, da banalização e da ideia de quê "não dá nada matar". E quando acontece queremos Justiça, clamamos por ela e nos indignamos de como as pessoas podem agir assim contra seu semelhante. Muitos começam a falar que a humanidade não tem jeito, que o mundo esta perdido e por aí. Outros reclamam que só quem tem proteção é o bandido, que depois de agir de forma vil é protegido pelos direitos humanos. Apoio totalmente a indignação, assim como apoio que a legislação criminal deve ser mudada. Mas o que a vítima de violência necessita é de JUSTIÇA. É a lei que deve ser aplicada no seu rigor, direitos humanos são pra casos de violação de direitos... humanos, cárcere, escravidão, tortura. É pra quando o Estado, ou os dirigentes, ou pessoas com muito poder atuam contra os direitos constitucionais das pessoas. Pra estes casos clama-se aos direitos humanos. "Ah! Mas os bandidos tem!". Tem, como todos nós temos. Pois os bandidos quando encarcerados em presídios estão sob guarda do Estado.
O caso do massacre do Carandirú tem sido notícia ultimamente, por conta do julgamento dos responsáveis pelas mortes no presídio. Passaram-se 21 anos, alguns dos acusados já morreram e as penas, que passam de cem anos de reclusão, sabemos não chegarão a ser cumpridas, visto que com um terço delas já se pode sair em liberdade.A mim também parece que não há justiça, que os culpados não pagam sua dívida, são depositados nos presídios feito porcos nas encerras, num sistema prisional que não recupera ninguém. Não é hipocrisia, a indignação fazem parte do meu ser e fico muitíssimo revoltada com casos de violência, pedofilia, exploração de menores, tráfico e coisas do tipo. Mas não creio que diminuir a maior idade penal vá resolver a situação da violência. Serão apenas mais homens e mulheres com menos idade dentro de um presídio. Antes de diminuir a maior idade penal seria necessário modificar a legislação e a forma de "tentar" recuperar pessoas que cometeram crimes. Já diz um ditado popular que "mente vazia é oficina do capeta". Seguindo esta linha o mais importante em primeiro momento seria colocar o estudo e o trabalho como meio de recuperação desde as "fases" e aplicando-se também aos presídios. A reclusão por si só é uma forma de punição, mas não faz com que a maioria dos culpados pensem ou corrijam seus crimes. Ficar anos preso sem ter nenhum aprendizado real, além das maldades ou da própria criminalidade que se propaga muitas vezes nestes espaços de reclusão, não devolverá para a sociedade alguém ressocializado. Pode devolver alguém que "pagou" sua dívida, mas não alguém "recuperado".
É sabido, embora pouquíssimo trabalhado, que a mudança real para a criminalidade passa pela verdadeira melhoria na educação, saúde, remuneração trabalhista e segurança. Também é preciso responsabilizar e punir políticos corruptos e assemelhados. Mas a questão é complexa visto que quem poderia atuar para esta mudança é justamente aquele que desvia dinheiro de causas sociais. A impunidade dos grandes corruptos faz com que a maioria das pessoas deixe de acreditar na justiça. Sei que existem pessoas do bem (muito mais do que aquelas do mal) que atuam de forma independente em projetos sociais na busca de amenizar os problemas que acabam na violência. Devemos dar voz a estes cidadãos. Como dizia Gandhi "seja a mudança que você quer ver no mundo".Fotos google imagens.
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